O que Roma ainda sussurra nos nossos tribunais
Dois mil anos depois, continuamos discutindo as mesmas três perguntas — e fingindo que são novas.
Quando um advogado romano se levantava no Fórum, ele sabia que não estava ali para provar um fato. Estava para convencer homens cansados de que sua versão da história merecia ser a versão oficial. Nada mudou. Trocamos a toga pela beca, o Fórum por uma sala com ar-condicionado ruim, e mantivemos intacta a parte essencial: alguém conta, alguém decide, e quase ninguém sabe de verdade o que aconteceu.
Passei anos achando que o direito moderno havia superado aquilo. Havia técnica, havia procedimento, havia recurso. Depois entendi que técnica e procedimento não são o oposto da retórica — são a retórica com melhores modos.
As três perguntas
Todo julgamento, do romano ao de terça-feira passada, gira em torno das mesmas três: o que aconteceu, quem é responsável, e quanto isso vale. A primeira é histórica. A segunda é moral. Só a terceira é jurídica — e é justamente a única em que costumamos gastar tempo.
Julgamos rápido o que não entendemos devagar.
O incômodo dessa constatação é que ela não aponta para um defeito do sistema. Aponta para um traço nosso. A pressa em concluir é anterior a qualquer código; é o que nos permitiu sobreviver quando decidir depressa valia mais do que decidir certo. O tribunal apenas herdou esse instinto e lhe deu carimbo.
Escrevo sobre isso não para acusar ninguém. Escrevo porque a única defesa que conheço contra a pressa é a leitura — a atividade mais lenta que restou.